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29/10/2010
Criação de abelhas nativas sem ferrão impulsiona produção de sementes

Outra ação do projeto é o Curso para criação de meliponários. O curso está inserido em um contexto mais amplo, que tem conexão com a recuperação de áreas degradadas. Abelhas nativas são fundamentais para a reprodução da floresta tropical. De 40 a 60% da polinização (transporte do pólen da parte masculina da flor até a parte feminina, para a formação de sementes) é feita por essas espécies, bem mais que pássaros, morcegos ou mesmo o vento. Numa situação de degradação ambiental, isso significa uma maior oferta de sementes e, em conseqüência, a aceleração de reflorestamento da mata nativa.
“Algumas espécies, além de prestar esse serviço ambiental, são interessantes para serem criadas pelo homem por motivos socioeconômicos: produzem mel e própolis de excelente qualidade. Introduzidas em sistemas agroflorestais ou mesmo em hortas e pomares, aumenta a produtividade e o vigor das plantas. Juntando esses aspectos sociais, econômicos e ecológicos, temos uma atividade dita sustentável”, observa Betina Blochtein professora da Faculdade de Zoologia da PUC-RS e integrante do Grupo de Pesquisa Ecologia de Abelhas. Junto com a pesquisadora da FEPAGRO, Sídia Wilter, Betina realiza as atividades de capacitação para manejo de enxames.

O projeto, patrocinado pela Petrobras (Programa Petrobras Ambiental), estabeleceu como meta a criação racional de 4 espécies de abelhas nativas sem ferrão: manduri, guaraipo, tubuna e jataí – as duas primeiras ameaçadas de extinção. “Os enxames estão sendo adquiridos na própria região, de meliponicultores que manejam racionalmente os núcleos de abelhas, com os devidos cuidados que esses insetos merecem”, informa o coordenador geral do projeto, Dilton de Castro.
Sídia explica que é comum se dar mais atenção ao leito do rio e à cobertura vegetal do que à fauna que habita a região, ou habitava antes de nós a ocuparmos. “As populações indígenas que passavam por aqui tinham grande relação com essas abelhas, tanto que a maior parte delas tem nomes indígenas, de diferentes origens, e no mundo inteiro, onde existem essas abelhas sem ferrão, elas têm esses nomes regionais”, acrescenta a pesquisadora.

A implantação dos meliponários (estrutura semelhante ao apiário) será, preferencialmente nas bordas de capoeiras, matas e hortas. Eles serão doados a pessoas que participarem de todas as etapas do curso e tiverem interesse em começar ou aumentar a sua criação. “As caixas têm que estar um pouco protegidas, como se estivessem no interior da mata. Através desse serviço podemos ter a conservação da diversidade dos ecossistemas agrícolas e naturais. E segurança alimentar, com maior quantidade de frutos e sementes”, indica Betina.
A abelha mais comum, Apis melífera, não é nativa do Brasil. Ela foi introduzida em 1850, trazida da Europa. Cem anos depois foi importada a abelha africana. Hoje ela existe uma mistura entre ambas, chamada de abelha africanizada. Apesar de exóticas, essas espécies trouxeram benefícios de produtividade maiores que as nativas, que se desvalorizaram economicamente e perderam espaço. Por fazerem seus ninhos em árvores, as nativas foram prejudicadas pelo desmatamento, com espécies sendo extintas. No mundo, são descritas cerca de 400 espécies de abelhas sem ferrão, e elas ocorrem somente nas regiões tropicais. Existem hoje descritas pela ciência 20 mil espécies de abelhas, e dessas, em torno de 95% não são sociais, mas solitárias.
Editado por Coletivo Catarse
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